Acordo com uma fome voraz, meu coração esqueceu como é pulsar corretamente, acendo o primeiro cigarro do dia e pareço satisfeita com a moleza que ele me trás. Ando de samba-canção pela casa e esqueço da vida, aumento todo o volume da trilha sonora de Pulp Fiction e me enrolo no edredon ainda quente. Paro em frente ao espelho e olho fixamente pro meu rosto e quarto refletindo ali, não sei como eu convivo com tanta bagunça. Meu primeiro impulso sair correndo átras de cocaína, mas isso me atrasa a vida.
Meus pensamentos a mil por hora e eu nem consigo levantar. Ninguém sabe como é difícil pensar nessa velocidade, eu sou capaz de construir mil planos enquanto você termina sua frase. Viro meu pescoço até os estalos gostosos. Termino o meu segundo cigarro, deixo o ededron escorregar pelo corpo até o chão. Entro no chuveiro com dificuldade sento e deixo que a água molhe tudo que encontrar pelo caminho. Não consigo me sentir vivo, esse medo me consome. A música repetindo me faz esquecer do tempo, finalmente lembrei de levantar. Seria bonito ver sangue misturado com essa água nos meus pés.
Me sinto um morto-vivo trancado aqui dentro, eu deveria me vestir e seguir pro meu emprego. Hoje não. Hoje eu quero me sentir vivo, me sentir vivo sem precisar cheirar carreiras a fio, sem espancar a cara de álguem. Vou me permitir testar aquilo que me deixa feliz. Pego meu mp3, visto meus tênis furados e o moletom batido. Me sinto corfortável. Caminho livre olhando pro chão; quando levanto os olhos vejo mil rostos conhecidos e procuro saber o que eles estão pensando, pra onde estão indo. São todo bonecos seguindo suas vidinhas medíocres. Eu também faço isso, qualquer um que viva sob um sistema político acaba virando fantoche. Elas parecem tão satisfeitas, e até felizes. Com suas sacolas cheias de merda e passos apertados pra poder consumir depois de ralarem o dia inteiro.
Depois de desviar mil pés, eu sento e acendo outro cigarro me sentindo pequeno. Devia ter mandado aquela carreira antes de sair de casa, penso inconsolável. É tão destrutivo que se torna poderoso. Eu prefiro me acabar nas próprias mãos do que dilacerar minha vida pra acabar pior que isso.
Esfrego minhas mãos com força e me sinto contorcer enquanto levanto, sigo pra casa. O cheiro do café fresco na cozinha me anima, tomo xícaras. Entro no fusca e rio quando vejo o tecido com estampas espaciais sob o banco de couro, mas com esse calor ele me faz grudar aqui sentado.
Estou olhando ela dançar fixamente, suas mãos deslizam pelo seu corpo perfeito. Os olhos dela sempre fechados e aquela expressão de prazer contínua. Sinto um desejo inconsciente de apertar aquela bunda com toda a minha força. Quero marcar seu pescoço branco com meus dedos, quero sentí-la rebolar contra meu membro, duro só de imaginar.
Peço outra cerveja e uma dose de tequila, ela vai ser minha hoje. Acendo um cigarro enquanto me imagino trançando aquelas pernas nas minhas e por mais que não esteja mais analizando-a dos pés a cabeça, lembro perfeitamente daquele momento em que ela acariciava sua pele perfeita mesmo sob a roupa.
Imagino o fedor daquele quarto, paredes azuis de madeira e fotos da infância na parede. Ela era aquele tipo de garota encantadora, que não deveria parar em lugares como aquele, dançando tão desejável. Confesso que não foi na primeira (nem na segunda( noite que puder tocá-la como queria , levei 6 longos dias. Se ela não tivesse aquele perfume doce que me deixava louco, talvez eu tivesse agarrado outra bunda por aí. Eu queria ela, aquele sorriso inocente, queria guiá-la pelo meu corpo, queria fazê-la tremer, vê-la pedir mais.
Dois dias de orgia e cereal, não havia mais nada puro naquele apartamento e eu quero esgotá-la não quero dividir algo tão bonito com mais ninguém. Não tenho certeza se foram as paredes azuis ou esse aperto no peito, essa sensação de perda. Talvez tenham sido os dois, junto com o meu egoísmo e sangue-frio. Terminei de usá-la, não havia nada que eu não houvesse feito com aquela garota. Lençóis, cama, cadeira, chão, parede, fogão.. Transamos em todos os lugares da casa, e sentir aquele corpo contra a parede foi uma dasminhas melhores experiências, fiz-a rebolar como nunca havia feito antes. Ela precisava de álguem pra mostrar a ela o que era sexo, não aquela coisa papai e mamãe que ela fez com os namoradinhos na escola. Eu queria torná-la poderosa, sexy. E o fiz.
É uma pena tê-la deixado daquele jeito, mas sempre tive tesão em ver o sangue misturado com água. Pensei nisso quando tomei um banho ontem, na água misturando com o sangue. Sentei me na privada aberta e acendi meu beck enquanto via isso acontecer, a pele dela era a mais branca que eu já havia visto. Foi uma cena inesquecível aquela, certamente era do corpo ensaguentado e da água tomando conta de todos os milímetros dele que vou me lembrar daqui alguns anos.
Vesti as luvas que tinha levado dentro da minha mochila, adoro me livrar dos vestígios quando estou chapado. Faço isso com prazer, cuidadosamente limpo cada pedaçinho do banheiro enquanto espero o seu corpo esfriar. Ela era linda, eu sentia vontade de montar nela mesmo ali, caida na banheira sem pulso. Ela ainda deveria estar quente, mas eu não tenho coragem pra isso. Pra tocar em algo tão inocente sem que ela tenha como se defender.
Vou pra cozinha e como mais uma tijela de cereal antes de limpar tudo ali, ligo o mp3 pra não chamar a atenção dos vizinhos. Lembro de como ela se portava, de como gemia baixinho só pra mim ouvir ali encima daquele fogão. Sinto me confortável em saber que ninguém ia sujá-la com sexo depois de hoje. Levo quase 2 horas pra me livrar das possíveis pistas. Escrevo uma carta e jogo encima da cama. Tranco a porta quando saio, desço as escadas correndo e entro na cafeteria logo na esquina. Peço um café e vou para o fusca acender outro beck. Nunca me senti tão grande, tão vivo. Eu não sei se isso acontece com todo mundo, mas odeio quando fumo e sinto remorso. Eu seria capaz de não fazer nada mais de errado se sempre tivesse um beck queimando na minha boca, ele queria que eu virasse uma boa pessoa, ele era meu lado bom. Hoje me permiti não sentir culpado, aquela garota não merecia ser tocada por nenhum filho da puta. Ela era pura, fresca e sorria sinceramente pra mim.
O caminho pra casa fluiu sem eu me dar conta, entrei, e vejo o gato enfurecido, já que eu havia o deixado ali trancado por dias. Abro as portas do armário e sirvo sua tijela até encima de comida, ele parecia feliz depois de enrolar seu corpo magro várias vezes pelas minhas pernas enquanto esperava, guloso. Já eu, queria chocolate. Abri uma caixa e comi sem ver enquanto imaginava ela rebolando na minha cozinha, pena não tê-la comido aqui, as imagens seriam mais claras na minha cabeça. Acendo um cigarro e penso na merda que é comer, perdi totalmente minhas viagens. Termino o cigarro e já levo o beck até meus lábios secos, famintos de fumaça e imaginação.
Assisto o jornal pra saber se não pequei em nada, e não. Eles nem suspeitam quem foi, eu sou muito bom nisso. Apenas uma coisa me intriga, os tubos de ensaio com sangue de cada uma delas no meu congelador. Se algum dia, alguém os encontrar eu estou fodido até a morte; mas não podia ir contra esse fetiche e me livrar deles, não teria recompensa e eu com certeza esquecia de meia dúzia delas.
